O dia amanhece com chuva e loja aberta há uma hora e nenhum cliente, mas os funcionários conversam sobre os mais variados assuntos. Um deles dá um último retoque na vitrine, senta em uma cadeira afastada da mesa de atendimento e lê um livro técnico. Entre eles o office-boy de nome Carlinhos que vendo Luiz separado dos outros foi perguntar o que ele estava lendo.
_ Ôh meu, que cê tá fazendo aí quietinho, meu!?..
_ Pois é Carlinhos, estou estudando um pouco. Quando a gente quer fazer bem nosso trabalho temos que conhecer, por isso estou estudando óptica.
_ Brincadeira, meu... Você é o cara que mais conhece do assunto aqui. Todo mundo vem perguntar pra você quando tem um problema, até os caras do laboratório te elogiam.
_ Não é bem assim, tenho muito que aprender ainda.
_ Pô cara, sabe que termino o ensino médio este ano e pensava em te perguntar como faço para trabalhar em óptica. Estou aqui há seis meses e estou gostando desse trabalho, parece uma boa profissão, você acha que posso?
_Que bom garoto, gostei de saber. Posso te dar umas dicas sobre o curso e posso ensinar algumas coisas que são úteis a um auxiliar de vendas.
_Sério meu!? Eu quero sim, é muito bom. Luiz você é 10, cara!!!
_Precisamos então combinar quando você quer começar e que hora vamos poder estudar.
_Pode ser hoje mesmo, demorô, meu...
_Calma, vamos fazer com critério, para aproveitar bem o tempo. Quando chegar em casa hoje vou fazer um plano de aula, um roteiro para não nos perdermos e em determinado período fazer um feedback para ver como você está se saído.
_O Luiz, desculpe, mas o que é isso que você falou?
Custa caro isso? Eu já estava pensando quanto você ia cobrar pelas aulas e ainda tem esse negócio ai.
_Carlinhos, Carlinhos, precisa ler mais para se instruir. Parece que eu falei uma coisa do outro mundo, se lesse mais saberia o que eu disse. Eu quis dizer com esta palavra que de tempos em tempos vamos ver como você está entendendo o que estou te ensinando. Nada mais que isso.
_Legal, mas quanto vou ter que te pagar pelas aulas?
_O pagamento que quero é sua boa vontade, sua dedicação nos estudos e no trabalho. Tenho uma razão para isso, pois vou fazer o mesmo que alguém fez por mim um dia, vou te contar como foi que isso aconteceu comigo e amanhã chegue mais cedo que vou trazer o programa do que vamos estudar. No início será só teórico, mas depois vamos ver se o patrão deixa você ser auxiliar e aí poderá praticar o que aprendeu.
_Tá bom. Legal, conta aí como foi que aprendeu óptica, fala aí como foi?
_Na verdade aprendo todos os dias, mas o começo de tudo foi há alguns anos.
Quando tinha 22 anos de idade eu trabalhava como tapeceiro em uma loja de decorações no bairro de Pinheiros, zona oeste de São Paulo. Aquele era o trabalho que aprendi aos 12 anos de idade, quando ainda morava no interior, quando vim morar aqui em São Paulo. Tive a felicidade de trabalhar nesta empresa onde fiquei por 5 anos e fiz muitas amizades. E foi um incentivador meu que me encaminhou quando comecei a estudar óptica.
Tudo começou na verdade quando chegou à empresa um novo profissional, na verdade o melhor que puder conhecer neste no ramo de tapeçaria. Seu nome era Décio, que apesar de não nos vermos com freqüência ainda somos amigos. Ele me dava carona na volta para casa e íamos conversando e ele dizia que gostava de conversar comigo porque eu tinha um papo diferente dos outros colegas e era calmo. Bondade dele, amigo é assim mesmo, nos vê sempre com outros olhos.
Trabalhávamos juntos há mais ou menos 1 ano quando em uma dessas viagens de volta para casa ele me perguntou se eu gostava de trabalhar de tapeceiro, pela minha maneira mais formal de ser em relação aos colegas que tínhamos na empresa. Respondi que sonhava um dia poder estudar e ter uma formação acadêmica, embora gostasse do que fazia. Ele me disse: _ Tenho um primo que dá aula de óptica e está começando uma nova turma, se quiser falo com ele, quem sabe será um novo caminho em sua vida.
Prometi pensar no assunto e que daria uma resposta, conversei com algumas pessoas sobre a proposta e todos foram a favor e me aconselharam a aceitar. Oportunidade de cursos de qualquer natureza não havia muitas, pagos ou não. Esse curso era pago, não era caro, mas além da mensalidade tinha a condução, quatro ônibus. Como meu amigo Décio sabia o quanto eu era tímido e poderia desistir, foi por uma semana às aulas, e, vendo meu entusiasmo com as aulas me deixou só e fui até o final para prestar exame e conseguir meu sonhado diploma de óptica.
O professor, óptico conceituado no meio Sr. Sergio Malagrini, já falecido e de quem ainda hoje me lembro em minhas preces, ficou entusiasmado com meu desempenho que só paguei o primeiro mês, pois eu era o único que não trabalhava em óptica e conseguia entender todas as matérias que os outros tinham dificuldade em entender.
Após terminar o curso continuei trabalhando como tapeceiro, sempre à espera de uma oportunidade para iniciar em uma loja de óptica ou um laboratório. Mas meu amigo Décio que tinha uma vida mais social que a minha, ficou sabendo que uma loja perto de sua casa estava precisando de um vendedor de óptica. Ele e sua esposa Lena foram até a loja saber sobre a vaga e no outro dia logo cedo no trabalho veio me contar e trouxe o número do telefone e o nome do gerente da loja. No intervalo do almoço fui ao orelhão e liguei para o gerente e marquei uma entrevista no dia seguinte, mesmo sem saber onde ficava a rua. Voltei entusiasmado que nem sentia fome para almoçar. Os colegas me deram os parabéns como se eu tivesse ganhado um prêmio que na verdade era para mim. Para minha surpresa o Décio disse que me levaria lá no dia seguinte e conversou com nosso patrão que, não sei se queria se ver livre de mim ou queria me ver bem e concordou com a saída mais cedo dos dois funcionários.
Bem... te conto como foi a entrevista com o gerente amanhã, ta bom ? Agora é hora de trabalhar, parou a chuva e está chegando cliente.
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